
Oi pessoal, o post de hoje traz 10 poemas de Ferreira Gullar selecionados especialmentes para vocês. Espero que gostem!

José Ribamar Ferreira mais conhecido como Ferreira Gullar, é um conhecido poeta brasileiro que nasceu em 10 de setembro de 1930 e faleceu em 4 de dezembro de 2016. Precursor do movimento de conretismo e neo-concretismo, Ferreira Gullar foi um inovador poeta que começou a trilhar seu caminho na terceira geração do modernismo e aos poucos foi caminhando em direção à poesia comtemporânea, concreta de fato. Sua materia prima não era só o significado da palavra, mas sua forma também.
Ferreira Gullar também era artista plástico e escritor de crônicas. Ele foi perseguido durante a ditadura, tendo por isso que ir morar na Argentina e no Chile. Nessa época ele lançou o livro “Palavras sujas” de temática política. Sua poesia é cotidiana e simples, que explora detalhes que normalmente passa despercebido no cotidiano corrido dos meios urbanos.
Atividades
1. Poemas de Ferreira Gullar

Muitas vozes
Meu poema é um tumulto: a fala que nele fala outras vozes
arrasta em alarido.
estamos todos nós cheios de vozes que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz
se dizes pêra acende-se um clarão um rastilho de tardes e açucares ou se azul disseres pode ser que se agite o Egeu
em tuas glândulas
A água que ouviste num soneto de Rilke os ínfimos rumores no capim o sabor do hortelã
essa alegria
A boca fria da moça o maruim na poça
a hemorragia da manhã
Tudo isso em ti se deposita e cala. Até que de repente um susto ou uma ventania (que o poema dispara) chama
esses fosseis à fala.
Meu poema é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.
Assista aqui esse poema declamado:
2. Poemas de Ferreira Gullar

Traduzir-se
Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte
delira.
Uma parte de mim almoça e janta; outra parte
se espanta.
Uma parte de mim é permanente; outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem; outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte —
será arte?
Assista aqui esse poema apresentado pelo próprio Ferreira Gullar:
3. Poemas de Ferreira Gullar

O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Assista aqui esse poema declamado:
4. Poemas de Ferreira Gullar

Não há vagas
O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar
do pão
O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabe no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores, está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores, não fede
nem cheira
Assista aqui esse poema declamado:
5. Poemas de Ferreira Gullar

Subversiva
A poesia Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe. Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois Reconsidera: beija Nos olhos os que ganham mal Embala no colo Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
Assista aqui esse poema declamado:






